Existe algum lado bom na Ansiedade?

A Ansiedade é uma das várias Emoções que podemos expressar em diferentes situações de nossas vidas. E, nos tempos em que estamos vivendo, mesmo antes de estarmos confinados por conta do Coronavírus, entramos em contato diário com uma enxurrada de textos, reportagens, lives, sobre o que devemos fazer para melhorar nosso Estado de Ansiedade. Mas será que SEMPRE é ruim nos sentirmos ansiosos? Existe algum lado bom na Ansiedade?

Bom, para tentar responder a essa pergunta, primeiro precisamos compreender o que é a Ansiedade!

AFINAL, COMO PODEMOS DEFINIR A ANSIEDADE?

A palavra Ansiedade possui sua origem no Latim e seu significado está baseado em três palavras: ANXIETAS, que significa angústia, ANXIUS, pertubação, e na palavra ANGUERE, apertar, sufocar; esta palavra também pode ser traduzida como Serpente.

Assim, Kaplan, Sadock e Grebb em seu Compêndio de Psiquiatria: Ciências do Comportamento e Psiquiatria Clínica, definem a Ansiedade como sendo a sensação de “[…] um sentimento difuso, desagradável e vago de apreensão”. Relacionados frequentemente com dores de cabeça, palpitações, tremores, boca seca, vertigem, sudorese, sensação de aperto no coração, inquietação e desconforto abdominal. Sendo que, o conjunto de sintomas, em um quadro ansioso, pode variar de pessoa para pessoa.

MAS, POR QUE NOS SENTIMOS ANSIOSOS?

A Ansiedade é um estado vivenciado por todos nós e em muitos momentos de nossas vidas. De modo simples, podemos definí-la como o nosso SINAL INATO de ALERTA.

Ou seja, a Ansiedade possui a função de nos avisar da possibilidade de estarmos diante de uma situação de perigo, o que nos coloca em alerta. Assim, é ela, a Ansiedade, o que nos permite tomar decisões e criar estratégias para podermos enfrentar a ameaça que se aproxima.

Sem a Ansiedade não teríamos a possibilidade de estarmos preparados diante das situações de “perigo” ou desconhecidas, pois nada nos avisaria de que deveríamos estar mais atentos naquele momento.

Por exemplo, ao atravessar uma avenida super movimentada, caminhar sozinha em uma rua deserta a noite, ou quando estamos na eminência de perder o ônibus que nos levará para casa depois de um longo dia de trabalho.

É a Ansiedade que permite que nos preparemos para uma entrevista de emprego, para a prova da faculdade ou quando queremos pedir o aumento para o nosso chefe. Sem ela, todas essas situções seriam vividas como banais e não daríamos nenhum tipo de atenção especial a elas.

“A Ansiedade, portanto evita danos, alertando a pessoa para que realize certos atos que prevenirão o perigo” (KAPLAN, SADOCK et al, 2016, p.546).

A Ansiedade se faz presente, de maneira saudável, em vários momentos do Desenvolvimento Bio-Psico-Social de um indivíduo. Sendo, inclusive, de fundamental importância no processo de desenvolvimento da identidade individual e da própria busca pelo sentido da vida.

Para Sigmund Freud, a Ansiedade Original ocorre no momento do nascimento de uma criança e, de acordo com Winnicott, além dessa, as primeiras experiências de Ansiedade estariam relacionadas com a sensação de perda de equilíbrio pela criança.

E, é por isso que os conceitos de Holding (a sustenção física do bebê por sua mãe), Relações Maternas Primárias, Mãe Suficientemente Boa são de fundamental importância para esse Psiquiatra Infantil e Psicanalista.

Para Winnicott, são essas primeiras sensações de perda do equilíbrio (Ansiedade) e imediata restauração desse equilíbrio pela mãe, possível por ela estar atenta e disponível a seu bebê, que irão permitir que a criança se diferencie da mãe, que desenvolva um sentimento de confiança no ambiente, que se integre enquanto indivíduo e, por consequência, consiga se relacionar de maneira saudável com outras pessoas, além de seus pais, e viver sua vida de modo criativo.

E já adianto aqui que nada disso significa viver uma vida sem problemas, sem crises, sem dilemas ou sem sofrimento. Mas permite viver uma vida com a convicção de que possui recursos internos para passar por essas situações sem ser destruído ou a confiança suficiente em si mesmo para pedir ajuda quando perceber que a situação que está vivendo pode estar além de suas capacidades emocionais, físicas ou até mesmo sociais.

Podemos pensar que esses momentos de Ansiedade, o de perda do equilíbrio (e agora não apenas o equilíbrio físico, mas o emocional), vão se repetir, porém de outras maneiras, em todo o Desenvolvimento Emocional de uma criança, bem como durante toda a vida do indivíduo: no aprender a andar, no desmame; o primeiro dia na escola, a sua primeira demonstração de raiva dirigida à mãe, o início da alfabetização, as primeiras vivências adolescentes, mudança de escola, a separação dos pais, o primeiro encontro amoroso, a escolha de uma profissão, a entrevista de emprego, perder o emprego, o casamento, o nascimento de um filho, a vivência da maternidade e paternidade.

Enfim, a Ansiedade nos sinaliza que estamos diante de algo desconhecido, que pode ser empolgante ou algo que não sabemos, ainda, se temos recursos internos para lidar; diante de um momento difícil ou até mesmo diante de uma situação de potencial perigo.

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ENTÃO POR QUE E QUANDO A ANSIEDADE PODE SE TORNAR UM PROBLEMA?

Primeiro, alguns dados: de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), no Brasil há 18,6 milhões de brasileiros que sofrem de Ansiedade. Isso equivale à 9,3% de toda a nossa população e nos coloca em 1º lugar no mundo, com relação ao número de pessoas ansiosas em relação a outros países.

Além disso, a OMS constatou que, no Brasil, por conta do preconceito contra a área de Saúde Mental, a maioria absoluta das pessoas que sofrem desse Transtorno se recusam a aderir aos tratamentos psicoterápicos e medicamentosos. As justificativas? “Não sou louco” ou “Não quero ficar dependente de remédios”.

Agora, respondendo a pergunta acima “Por que e quando a Ansiedade pode se tornar um problema?” e já sabendo que essa emoção faz parte e é importante para o nosso desenvolvimento emocional, se fazendo sentir em diversos momentos e situações de nossas vidas: entendemos que a Ansiedade torna-se um problema quando se estabelece como sendo a nossa resposta emocional para situações inadequadas, enquanto precipitadoras de ansiedade, ou quando temos um resposta ansiosa de grande intensidade e duração, mesmo que ocorram em situações que habitualmente seriam geradoras de Ansiedade.

Para uma situação ser precipitadora de Ansiedade, precisa ser considerada como uma situação estressante. E, a caracterização de uma situação estressante depende, primeiramente, de sua natureza, mas também dos recursos internos de cada indivíduo. Ou seja, depende do modo como cada um a interpreta, a sente e se considera que é capaz ou não de enfrentar tal situação.

Em termos psicológicos estamos falando das características do Ego, de seus recursos, suas defesas e condições de manejo das demandas dos estímulos externos e internos.

Assim, por conta de tudo que já conversamos até aqui, podemos supor que em um situação estressante, sentimos Ansiedade e a percebemos como um sinal de que estamos diante de uma situação de potencial “perigo”. O que nos possibilita avaliá-la, para buscarmos e desenvolvermos modos internos e externos para lidar com tal situação.

Por exemplo, quando sei que vou ministrar uma palestra sobre um determinado assunto, isso me gera Ansiedade, o que me impulsiona a estudar sobre o assunto, preparar o material de apresentação com antecedência, treinar a palestra, se ainda me sinto ansiosa. Estar preparada para enfrentar tal momento, faz com a Ansiedade não se faça mais presente.

Porém, pode ser que, antes de iniciar a palestra, posso novamente me sentir ansiosa. Mas, a partir do momento que começo a falar e percebo que estou dando conta de lidar com essa situação, a Ansiedade desaparece.

E se só o convite de realizar a palestra precipitasse em mim uma Ansiedade que me impedisse de separar o material de estudo adequado, não me permitisse estudar tranquilamente, nem preparar o material com antecedência?

Ou, mesmo dominando o tema, sabendo que tenho condições de ministrar tal palestra , eu não parasse de suar, tremer, gaguejar a ponto de parecer que não sei nada sobre o tema para qual fui convidada a falar, tamanha a minha dificuldade emocional e fisiológica em estar ali, na frente daquelas pessoas?

Ou ainda, se eu recusasse o convite, devido ao tamanho da Ansiedade sentida, por apenas ter sido lembrada para falar sobre um determinado assunto?

Estamos falando aqui de intensidades diferentes de Ansiedade, sendo que, nos três últimos exemplos, a Ansiedade causou uma mobilização psíquica e fisiológica que dificultou em demasia minhas escolhas e comportamentos, chegando, até mesmo, a me impedir de viver uma situação, valorizada por mim.

Então, nesses últimos três casos, estamos falando em CRISES DE ANSIEDADE, que podem estar presentes em situações específicas ou até mesmo durante todas as atividades do dia de uma pessoa.

Aqui, é importante enfatizar que, se existe alguma situação de estresse que cause um nível de mobilização emocional e física, por conta da Ansiedade, levando prejuízo a algum aspecto de sua vida, pode ser o sinal de que seus recursos internos não estão conseguindo dar conta dessas situações e, neste momento, torna-se importante procurar ajuda profissional.

Quando falamos de recursos internos, estamos falando dos aspectos Psicológicos da Ansiedade.

ASPECTOS PSICOLÓGICOS DA ANSIEDADE

Até agora, falamos dos aspectos fisológicos e comportamentais da Ansiedade. Mas é preciso que destaquemos os Processos Psicológicos que podem estar presentes, também em diferentes níveis, em uma pessoa que se encontra Ansiosa. Porém, já em um estado em que essa emoção cause sofrimento e comprometa suas relações interpessoais e sociais.

A Ansiedade pode causar distorções perceptivas, ou seja, fazer com que você interprete um evento de um modo muito diferente ao que realmente esteja acontecendo. Por que isso acontece? Porque pessoas ansiosas, até para dar conta dessa emoção, selecionam certos aspectos do ambiente ou evento e deixam, inconscientemente, de levar em conta outros aspectos que poderiam relativizar ou mesmo modificar a interpretação do ocorrido.

Desse modo, com a percepção seletiva dos acontecimentos, o Ansioso “cria” uma justificativa para sua intensa Ansiedade ou, até mesmo, um modo para deixar de se sentir ansioso, ao ignorar os sinais de alerta que se fazem presentes.

“Casos seus temores sejam falsamente justificados, a Ansiedade é aumentada pela resposta seletiva, criando um círculo vicioso de Ansiedade, percepção distorcida, Ansiedade aumentada. Se, por outro lado, tranquilizam-se falsamente através do pensamento seletivo, a Ansiedade adequada pode ser reduzida, e elas podem, então, não conseguirem tomar as precauções necessárias”. (KAPLAN, SACOCK et al, 2016, p.547).

Desse modo, e por interferência das distorções perceptivas, em estados ansiosos, há um comprometimento da concentração, redução da memória e uma dificuldade em associar um objeto ao outro; um evento com outro.

Outros aspectos Psicológicos relacionados com a Ansiedade são: avaliação negativa e catastrófica dos eventos e comportamento dos outros, baixa tolerância a situações ambivalentes, não confiam na sua capacidade de solucionar problemas e a excessiva avaliação de alternativas antes de tomada de decisões.

São todos esses aspectos que levam sofrimento a vida de indivíduos ansiosos e que precisam ser cuidados no atendimento psicoterápico.

Também, devemos levar em conta que, em muitos casos, a Ansiedade se faz presente de maneira constante na vida de muitas pessoas. Caracterizada por uma preocupação persistente e excessiva, juntamente com a manifestação dos sintomas físicos descritos acima, além de tensão muscular, insônia, fadiga. (DSM-V). Esses indivíduos muito frequentemente declaram a impossibilidade de se sentirem relaxados mesmo quando se esforçam para esse fim.

O motivo dessas preocupações constantes podem ser causadas por um único motivo, por exemplo, sair de casa, ou, até mesmo, estarem relacionadas a todas as situações de vida da pessoa.

De acordo com o DSM-V, esses sintomas caracterizam os TRANSTORNOS DE ANSIEDADE, sendo que, no caso das preocupações excessivas não estarem relacionadas a uma determinada situação, estaríamos falando do TRANSTORNO DE ANSIEDADE GENERALIZADA.

Especialistas no Tratamento do Transtorno de Ansiedade, alertam que indivíduos Ansiosos podem sofrer de Hipertensão Arterial e problemas cardíacos. Sendo estes mais um motivo para que essas pessoas sejam acompanhadas e cuidadas por Psicólogos e Psiquiatras, devido ao potencial sofrimento e restrições causadas na vida das pessoas que sofrem de Transtorno de Ansiedade Generalizada, bem como dos outros tipos de Transtorno de Ansiedade.

Lembrando sempre que, mesmo que a Ansiedade não seja persistente, mas nos momentos em que se faz presente, cause a pessoa problemas interpessoais ou sociais ou lhe cause um sofrimento excessivo, a ajuda profissional já se faz necessária.

CONCLUSÃO

Como foi discutido ao longo do texto, a Ansiedade é um Emoção necessária e importante para o nosso desenvolvimento emocional, visto que se caracteriza como o nosso sinal inato de alerta. Ou seja, a Ansiedade possui a função de nos avisar que estamos diante de uma situação de potencial perigo.

E é esse alerta, em forma de Ansiedade, que irá nos dar tempo para desenvolvermos estratégias e fazermos escolhas, ou seja, de nos prepararmos para a enfrentar a situação que se aproxima.

Porém, quando a ansiedade possui uma intensidade e duração maiores que as necessárias, ao invés de nos ajudar, nos trás sofrimento e limitações nas nossas relações interpessoais e sociais.

Este é um sinal de que precisamos de ajuda para lidarmos com os aspectos fisiológicos, comportamentais e psicológicos que a Ansiedade pode causar.

A Organização Mundial de Saúde (OMS), em 2017, ressaltou que, no Brasil, há 18,6 milhões de brasileiros que sofrem por conta da Ansiedade. O que nos coloca em 1° lugar no mundo com relação ao número de pessoas ansiosas em relação a outros países.

O que isso nos quer dizer?

Que 9% da nossa população sofre de Ansiedade e precisaria estar buscando ajuda profissional para conseguir amenizar os seus sintomas e prejuízos emocionais e sociais causados por essa emoção. Além do mais, já sabemos que os Sintomas Intensos da Ansiedade , quando não cuidados, podem acarretar em problemas, como a Hipertensão e problemas Cardíacos.

Christiani M.R. Tironi – CRP 06/71653 – Doutora em Psicologia Clínica, Especialista em Psicologia Clínica e Psicossomática, Atendimento on-line e presencial, Supervisão Clínica para Psicólogos – (12) 98131-6307.

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