Psicossomática: afinal, o que é isso?

Hoje, é difícil considerar que exista uma separação entre as nossas experiências emocionais e o que ocorre, enquanto processos fisiológicos, em nosso corpo. Essa relação é facilmente percebida quando, por exemplo, ao nos sentirmos ansiosos, temos palpitações, insônia, falta de apetite ou, ao contrário, nosso apetite aumenta. Ou, como já foi constatado pela Ciência, ao sorrirmos ou lembrarmos de momentos agradáveis, a nossa produção de Endorfina e Ocitocina aumentam, o que fortaleceria, inclusive o nosso Sistema Imunológico.

Porém, apesar da já tão divulgada relação entre mente/corpo; entre psique e o soma, ainda torcemos o nariz para as chamadas Doenças Somáticas, muito difundidas também pelo nome de Doenças Psicossomáticas. Isso porque, durante muitos anos, esses conceitos foram associados a “doenças inexistentes”, “doenças criadas pela cabeça do indivíduo”, associando características pejorativas aos Pacientes Somáticos, também chamado de Pacientes Psicossomáticos.

Bom, mas para entendermos essas questões é importante primeiro entender “O que é a Psicossomática, afinal?”

Foto Unplash

Então, o que é Psicossomática?

Primeiro, gostaria de dizer qual é a minha referência teórica no estudo e atuação clínica: é a Escola Psicossomática de Paris, fundada e baseada no estudos de Pierre Marty (1918-1993) que, na época da fundação da escola de Paris, chegou a ocupar o cargo de presidente da Sociedade Francesa de Psicanálise.

Para muitos estudiosos, foi a partir da fundação da Escola Psicossomártica de Paris que a Psicossomática passou a ser reconhecida enquanto uma área da Ciência, distinta da Psicanálise e da Medicina, apesar da sua estreita relação com essas duas Ciências e do fato de que o conhecimento e estudo Psicossomáticos só se tornaram possíveis a partir dos achados da Psicanálise, sobre o funcionamento da Psique e sua relação com o corpo.

Então, a partir daqui, já temos a primeira parte da definição de Psicossomática: é uma Ciência. E uma pista sobre qual é o seu objeto de estudo: a relação entre a Psique e o Corpo.

Em seu livro “Psicossomática do Adulto”, Pierre Marty ressalta que “O HOMEM É PSICOSSOMÁTICO POR DEFINIÇÃO”. Mas, o que isso quer dizer? Que a relação entre o corpo e a mente, a Psique e o Soma, está presente em todos os momentos de nossas vidas, desde o nascimento!

Wilson de Campos Vieira, percursor da Psicossomática no Brasil e um grande estudioso da Obra de Pierre Marty, em seu artigo “Somos Todos Psicossomáticos”, enfatiza como essa relação entre a vida psíquica e o corpo pode influenciar, inclusive, o aparecimento de doenças graves, ressaltando que todos nós estamos sujeitos a isso, principalmente após a vivência de uma experiência traumática.

Mas porquê estou aqui evocando esses grandes Psicanalistas e Cientistas da Psicossomática? Para poder contrapor uma visão ainda tão vigente e pejorativa sobre as Doenças Somáticas, como sendo doenças inexistentes, que considera os sintomas um puro e simples fingimento do indivíduo.

Essa concepção perjorativa das Doenças Somáticas parece se embasar em uma crença na existência de um dualismo entre mente em corpo. Diria mais, se embasa em uma concepção que corpo e mente são partes incomunicáveis de um indivíduo.

Esta impressão foi estimulada, e talvez moldada, pelos próprios profissionais e estudos na área de saúde, visto que, até a versão do DSM-IV (Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais-Quarta Edição), os Transtornos Somatoformes foram definidos como uma queixa física do paciente sem a constatação de uma alteração fisiológica. Ou seja, quando o médico não conseguia relacionar a queixa do paciente a nenhuma doença física, o paciente recebia o diagnóstico de “Transtorno Somatoforme”.

Se, como enfatiza Pierre Marty, “O Homem é Psicossomático por Natureza”, considerar que Doenças Somáticas são uma mera invenção psicológica, porque em alguns casos o médico não consegue relacionar os sintomas relatados pelo paciente com alguma doença, é acreditar que a relação entre Psique e Soma não existe; o que hoje, já sabemos, é um absurdo.

A partir do DSM-V, edição lançada em 2013, essa definição foi modificada, sendo que, o próprio nome de “Transtorno Somatoforme” foi substituído por Transtorno de Sintomas Somáticos e Transtornos Relacionados. Assim, de acordo com o DSM-V, esse Transtorno passa a ser um

“[…] diagnóstico feito com base em sinais e sintomas positivos (sintomas somáticos pertubadores, associados a pensamentos, sentimentos e comportamentos anormais em reposta a esses sintomas) em vez da ausência de uma explicação médica para sintomas somáticos”. (DSM-V).

Então, de acordo com Pierre Marty, a Psicossomática é a Ciência que estuda as relações dinâmicas entre a Psique e o Soma. E, quando essa relação é desarmônica, pode resultar em Doenças Somáticas. Ou seja, pessoas que não encontraram outras vias de elaboração de eventos e experiências traumáticas, manifestam seu sofrimento pelo corpo.

E, nestes casos, a Psicoterapia se faz tão importante. Pois auxilia o paciente na elaboração de suas experiências e em como harmonizar sua vida psíquica com seu corpo.

É claro que nada disso significa que o tratamento médico deixa de ser necessário. Pelo contrário, é de fundamental importância. O que se pretende ressaltar aqui é que o adoecimento do corpo pode estar sendo agravado ou preciptado por questões emocionais que o paciente não consegue lidar sozinho, precisando de ajuda e cuidado especializado.

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