Quando escuto minha filha  me pedir um tempo porque precisa primeiro finalizar algo que ela está fazendo para, só depois, escutar o que quero lhe falar, escuto isso com um sentimento de ter sido afrontada na minha expectativa: como ela ousa? É claro que, se essa resposta fosse emitida pelo meu marido, a reação máxima que teria seria um revirar de olhos, com ironia, um sentimento de superioridade e o pensamento: homens… Mas por que essa diferença?

No mundo feminino, desde cedo, somos ensinadas que um dos nossos “dons”, “poderes”, “qualidades” é cuidar das coisas, e que isso é amor. E esse simples comando nos joga nas costas alguns pré-requisitos: nos colocarmos atentas ao ambiente, sermos pró-ativas, priorizarmos as situações e lugares em que podemos ser úteis; tudo isso, o tempo todo.

Crescemos com uma cobrança implícita, sorrateira, de que uma “boa” mulher sabe dar conta de muitas coisas ao mesmo tempo. Todas as coisas, é claro, que não sejam suas próprias necessidades. Pois, nesse mundo de cobranças na construção da subjetividade feminina, olhar para as próprias necessidades é ser egoísta. E o egoísmo não combina com amar alguém: pais, marido, filhos, amigos. 

No consultório, essa percepção de si mesma é muito comum, inclusive a percepção de que estar se permitindo fazer psicoterapia, mesmo com a constatação do próprio sofrimento, parece, a algumas mulheres, um ato egoísta.

Mas o que essas exigências, desde muito pequenas, causam na construção da nossa subjetividade? Como todo comportamento aprendido, elas exigem adaptações. Porém como esses comportamentos chegam à maioria das mulheres como a única possibilidade de estar no mundo, essa adaptação não nos permite que muitos aspectos de quem verdadeiramente somos se manifestem. Afinal, desenvolver aspectos da nossa personalidade exige, invariavelmente, colocar limites, dizer nãos, colocar-se em prioridade. Parece muito contrastante com os valores que nos são ensinados, pelo simples fato de sermos mulheres.

A complexidade desse assunto e, como digo no consultório, a armadilha que se coloca é que somos seres que nos desenvolvemos invariavelmente por meio do vínculo afetivo. Ou seja, os relacionamentos interpessoais são necessários para o nosso desenvolvimento. Então, como estar em um relacionamento saudável, sem permitir a própria anulação e sem exigir que o outro se anule na relação conosco?

Vale ressaltar que essas exigências não atuam apenas como ideias que aprendemos racionalmente; elas acabam sendo incorporadas na forma como construímos nossa identidade e nossas relações.

Quando essas formas de estar no mundo são aprendidas muito cedo, elas deixam de ser apenas comportamentos e passam a fazer parte da maneira como nos percebemos e nos relacionamos. Acreditamos que somos assim. O que não percebemos é que, na maioria das vezes, foram adaptações necessárias para garantir pertencimento, amor e reconhecimento. Assim, “ser” de outro jeito; emitir comportamentos, pensamentos e sentir emoções, que não parecem ser aceitas nas nossas relações, são lidas como erradas, são sentidas como uma ameaça de deixar de ser amada.

Por isso, o trabalho psicoterapêutico não consiste simplesmente em aprender a dizer “não”, estabelecer limites ou emitir outros comportamentos. Trata-se de compreender como essas adaptações foram construídas, quais necessidades ficaram esquecidas e como podemos desenvolver uma relação mais verdadeira com quem  somos. Compreendendo, inclusive, de onde vem essa exigência de ser de uma única maneira para ser merecedora de amor.

Talvez seja justamente nesse processo que possamos encontrar uma forma mais saudável de viver nossas relações: sem a exigência da própria anulação e sem a expectativa de que o outro também precise se anular para que a relação exista.

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